quinta-feira, 9 de novembro de 2017

VLAD!




No século XV, a atual Romênia  era um país que estava dividido entre o mundo cristão e o mundo muçulmano ( a Turquia). Eles estavam em guerra contra o Império Otomano, que lutava para conquistar a região. Vlad II (1390-1447) defendia a região romena da Transilvânia (na Valáquia) de ataques dos turcos com sucesso, tanto que chamou a atenção do sacro imperador romano Sigismundo de Luxemburgo.




Em 1431, Vlad II entrou para a Ordem do Dragão, uma fraternidade secreta militar e religiosa, cujo objetivo era proteger a igreja católica contra heresias, criada por Sigismundo e sua segunda esposa, Barbara Von Cilli. Outro objetivo da Ordem, era organizar uma cruzada contra os turcos, que haviam invadido a Península dos Balcãs. Quando Vlad II entrou para a Ordem do Dragão, ele ganhou  o apelido Dracul que vem do latim draco ("dragão"), e passou ser chamado Vlad II Dracul.


                               Símbolo da Ordem do Dragão (na Romênia atual)


Só que Vlad II Dracul  se aliou a quem estava combatendo: os Otomanos! Ele se uniu ao sultão turco Murad II ( o poderoso conquistador chamado na época de "A Magnificência do Mundo, O Farol da Criação") e passou a combater Sigismundo e todos da Ordem do Dragão! 
Mas,  Murad II queria lealdade total, e desconfiado armou uma emboscada para Vlad e seus dois filhos (Radu e Vlad III). Vlad II Dracul foi preso, acusado de deslealdade. Para salvar seu pescoço e reinado, ele teve que deixar seus dois filhos como reféns na cidade turca de Adrianopla. Primeiro eles foram tratados como reféns de "luxo" e educados nas  artes, costumes e religião turca no Enderun Kolej; depois, Vlad III foi enviado para a  infernal prisão de Tokat, aonde aprendeu e sofreu as artes da tortura, e Radu (chamado "O Belo"), foi dado como escravo sexual para Mehmet,filho de Murad...
Vlad II voltou para a Romênia e reassumiu o trono de Voivode (Príncipe) da Valaquia com o apoio dos turcos, tendo que pagar tributos e outros favores a eles. Também surgiu a ameaça da Hungria, que se firmava como uma potência na época. Em 1447 o húngaros invadiram a Valáquia :  Vlad II Dracul morreu vítima de uma emboscada por John Hunyadi da Hungria, e Mircea, foi cegado com ferro em brasa e enterrado vivo. Hunyadi colocou então o segundo primo de Vlad, Vladislau II da Hungria como o novo Voivode.


 Vlad III Nasceu em 8 de Novembro de 1431, na cidadela medieval de Sighișoara na região conhecida como Transilvânia - Romênia ( A casa onde ele nasceu ainda está de pé nos dias de hoje, e é um restaurante temático).




Vlad III recebeu a melhor educação típica para um filho da nobreza, e segundo consta, era dotado de grande inteligência e ótima forma física, se destacando como guerreiro e atleta imbatível.   
Ele permaneceu refém  dos turcos até 1448.
Esses anos de cativeiro, foram fundamentais na formação do seu caráter. Relatos de seus captores o descrevem como insubordinado, trapaceiro, ardiloso e bastante bruto e cruel, inspirando medo aos seus próprios guardas.


Vlad invadiu a Valáquia com apoio dos turcos em outubro de 1448, mas Vladislau retornou e Vlad se refugiu no Império Otomano até o final do ano.  Este retorno tardio de Vlad III teria confundido os moradores da região, que pensaram ser Vlad II retornando anos após a sua morte. Isso teria ajudado a criar a lenda de sua imortalidade.




Vlad III passou a assinar vários documentos com o sobrenome Draculea, que significa "filho do dragão", uma referência a seu pai, Vlad II Dracul. Ele retornou à Moldávia em 1449 ou 1450 e depois para a Hungria. Draculea ficou exilado até 1451, quando voltou e se curvou a John Hunyad (ou Hunyadi János) - que matou seu pai e irmão - na Transilvânia. Por interesses políticos mútuos, Drácula e Hunyad se aproximaram de modo que Hunyad foi o último tutor de Drácula. Com ele, Draculea aprendeu muito sobre estratégia antiturca, pois participou de muitas campanhas contra os turcos em regiões que hoje conhecemos como antiga Iugoslávia. Ele ficou sob a proteção de Hunyad, até 1456. Depois da morte deste, ele invadiu a Valáquia com apoio húngaro, onde lutou com Vladislau e o matou. Vlad então começou a expurgar todos os boiardos da Valáquia para fortalecer sua posição. Logo, ele entrou em conflito com o saxões da Transilvânia, que apoiavam seus oponentes: Dan II da Valáquia e Bassarabe III da Valáquia, irmãos de Vladislau e o meio irmão ilegítimo de Vlad, Vlad, o Monge. Draculea atacou e saqueou vilas saxãs, levando prisioneiros para a Valáquia, onde os empalou.  A paz foi restaurada na região em 1460, e Vlad Draculea se manteve no poder até 1462. 



A maioria das atrocidades remetidas a ele são do período de 1456 até 1462, quando era Voivode da Valáquia. Foi durante esse tempo que ele lançou seu próprio ataque contra os Turcos ( que o haviam colocado no poder). Seu ataque foi relativamente bem sucedido inicialmente. Suas habilidades como guerreiro e sua bem conhecida crueldade fizeram dele um inimigo temido. Em 1462, os turcos liderados pelo sultão Mehmed II ( seu velho inimigo, o filho de Murat) retomam a Valáquia para substituir Vlad por seu irmão mais novo, Radu. Vlad então tentou capturar o sultão uma noite em Târgoviște, no mesmo ano, mas o sultão e muitos comandantes de seu exército partiram da Valáquia, enquanto vários cidadãos passaram a apoiar Radu para o trono. Vlad buscou auxílio na Transilvânia com Mathias I (Matthias Corvinus, ou Matia Corvin em romeno), rei da Hungria, mas Matthias o traiu e Vlad III Draculea ficou preso 12 anos em um castelo . Quando a primeira esposa de Vlad (não se sabe o nome dela) soube que ele fora preso, e que de Radu estava chegando para se apossar do castelo, ela decidiu suicidar-se saltando da torre do castelo Poenari, no rio Arges. Lendas afirmam que ela disse  "Prefiro que meu corpo apodreça e seja comido pelo peixe do Argeş do que ser prisioneira dos turcos"
Vlad foi mantido em cativeiro em Visegrád  (Hungria) entre 1463 e 1475. Foi neste período que anedotas e comentários sobre sua crueldade começaram a circular por toda a Europa. Foi também no cativeiro que Vlad conheceu a mulher que seria sua segunda esposa: Ilona Szilagy, irmã de Corvinus.




Vlad foi libertado a pedido de Estêvão III da Moldávia, no verão de 1475. Ele lutou no exército de Matthias contra os otomanos na Bósnia, no começo de 1476. Tropas húngaras e búlgaras o auxiliaram a forçar Bassarabe III, que tirou Radu do poder, a fugir da Valáquia em novembro. Bassarabe retornaria com apoio otomano antes do final do ano, e Vlad foi cercado e morto. Os turcos o decapitaram e sua cabeça foi colocada em uma estaca e ficou em exposição. Seu corpo foi enterrado no monastério de Snagov, próximo de Bucareste ( foto abaixo). Em 1931, um grupo de arqueólogos descobriu seu túmulo e seus restos foram levados para o Museu de História de Bucareste... de onde desapareceram, aumentando os mistérios...





Era o fim de Vlad III Draculea... E o começo de uma lenda...




 O Príncipe da Valáquia, Vlad III, também ficou conhecido como Vlad Țepeș, Vlad, o Empalador.



Empalamento era um método de tortura e execução que consistia na inserção de uma estaca pelo ânus, vagina, ou umbigo até a morte do torturado. Que podia demorar até 48 horas, com dores terríveis e  sede... Draculea aprendeu este método com os turcos na prisão de Tokat, e passou a ser a sua tortura favorita.





Herói nacional da Romênia, o príncipe Vlad Tepes , foi um homem que tentou reformar seu país e resistir às invasões otomanas, usando todos os caminhos disponíveis, por mais cruel que seja, para ter sucesso. A ideia de que a causa justifica tem em Vlad Tepes um exemplo perfeito.



Na Valáquia, Vlad é homenageado em baladas populares e lendas camponesas, principalmente nos vilarejos das montanhas que cercam o próprio castelo de Drácula, região onde ele é mais lembrado. Vlad é realmente parte importante na reconstrução do passado. Os camponeses se orgulhavam dos feitos militares de Drácula, não importando os métodos por ele utilizados para tanto.




A derrota final de Drácula(agora vamos tratá-lo simplesmente assim...) aconteceu no auge da popularização da invenção da impressão com tipos móveis, o que proporcionou a Internet da época, poder dar ao povo o que eles queria ler: Sexo & violência. "A história de Drácula oferecia ambos, de forma espetacular, e seus inimigos inundaram a Europa com as propagandas virais da época- Panfletos!"

                                                    (C.C. Humphreys, em "Vlad")




              Vlad Tepes caçando com um cão, estátua em uma igreja na Romênia...

Fica difícil estabelecer estatísticas sobre aquela época, mas segundo relatos alemães, ao atacar um de seus inimigos na cidade de Amlas, Drácula teria matado cerca de vinte mil pessoas : Mulheres, homens e crianças...Empalados!


Outra cidade que ficou ligada ao nome e crueldade de Drácula, é Brasov. Dizem que em suas colinas é que as vítimas de Vlad eram empaladas e deixadas para morrer e apodrecer ao sol. Conta-se que em uma destas colinas, Drácula jantou e tomou vinho entre centenas de cadáveres.




Existe também uma narrativa russa que fala de um boiardo (nobre), que veio para uma festa em Brasov e não aguentando o cheiro do sangue coagulado e carne apodrecida, fechou suas narinas com os dedos num gesto de repulsa. Drácula mandou que fosse trazida uma estaca e a exibiu ao visitante dizendo: "Fica ali, bem afastado, onde o mau cheiro não vai te incomodar". E mandou empalar o homem em uma estaca mais alta para ele ficar no ar mais limpo...

Contam que certa vez, dois emissários turcos se recusaram a tirar seus turbantes para o reverenciar em sua chegada, e por causa disso, Drácula mandou pregar os chapéus em suas cabeças.




Também dizem as lendas que um dia Drácula viu um aldeão com a camisa toda suja e lhe perguntou se sua esposa era saudável. O aldeão respondeu que sim e sua mulher teve ambas as mãos decepadas; e o príncipe arrumou outra esposa para o aldeão e lhe mostrou o que acontecera com a antiga, para que servisse de exemplo...



Outra narrativa conta que para limpar as ruas de Targoviste (capital da Valaquia), Drácula teria convidado todos os mendigos, doentes e andarilhos para um grande banquete. Centenas apareceram. Depois de comerem e beberem bem, Drácula mandou trancar e incendiar o prédio com todos dentro.








Mais sobre Drácula em Quadrinhos, livros & Filmes no blog CONTOS DE VAMPIROS: http://contosdevampiroseterror.blogspot.com.br/2016/11/dracula-origem-contada-em-livros-filmes.html


Muito se fala que Draculea/ Vlad Tepes foi a inspiração para o Conde Drácula, personagem fictício que dá título ao livro de Bram Stoker escrito em 1897. Na verdade Stoker sabia muito pouco sobre o príncipe valaquiano do sec. XV. "Originalmente, o vilão de seu livro iria se chamar "Conde Wampyr". Então Stoker descobriu um relato de um viajante inglês sobre uma viagem através dos Cárpatos, feita nos anos 1820. O Viajante menciona brevemente uma figura notória de séculos anteriores, um homem famoso por suas barbaridades. Ele também escreveu que o nome "Dracula" na língua local significava "filho do diabo"". 

                                                                     (C.C. Humpreys em "Vlad")

Stoker utilizou então o nome, e a região da Europa famosa por seu folclore gótico e seus castelos...

Falando em castelos... O  imponente castelo de Bran ( na comuna de Bran, Braşov - entre a Transilvânia e a Valáquia ) ,habitualmente conhecido como o "Castelo do Drácula", é promovido pelo turismo romeno como a residência do personagem do Drácula de Bram Stoker, sendo uma espécie de "Disneylândia macabra". O local serviu como entreposto militar na época de Vlad Tepes, mas não existem registros que o príncipe tenha residido (ou até mesmo visitado) no local...






O verdadeiro Castelo de Vlad é a citadela Poenari ( também chamada de Citadela de Tepes), no monte Cetatea, em Arefu, Arges-Romênia. 



As ruínas de Poenari, e alguns adereços para os turistas, diferentes dos caixões do castelo Bran...



A crença que Drácula é um morto vivo ( varcolaci, em romeno) veio (entre outros fatos) de que em uma de suas muitas batalhas o voivode levou um forte golpe na cabeça e parecia ter morrido. Depois de ver o seu líder caído seus homens bateram em retirada levando consigo seu corpo.  Antes da fuga ser realizada, Vlad III acordou do coma como se nada tivesse acontecido, e logo depois de recobrar os sentidos retornou à batalha levando seu exército à uma de suas mais sangrentas e vitoriosas batalhas, criando assim a crença que ele havia retornado dos mortos como um morto vivo...

Filmes sobre o Drácula de Stoker? Existem centenas! Sobre Draculea? ...





Vários filmes  estabeleceram conexões entre  Vlad Tepes e o Drácula de Stoker. De “Drácula” (1973) de Dan Curtis, com Jack Palance; Passando pelo “Drácula de Bram Stoker” (1992) de Francis Ford Coppola, até o recente "Dracula Untold" (Drácula: A História Nunca Contada, 2014) de Gary Shore. 

Em 1975, foi lançado o documentário sueco "In Search of Dracula" (A Verdadeira História de Drácula) de Calvin Floyd e Tony Forsberg, baseado no livro de mesmo título de Radu Florescu ( Renomado historiador romeno, descendente de uma família nobre da época de Vlad) & Raymond McNally.




Narrado por Christopher Lee, o documentário olha os fatos históricos, o folclore, a literatura e os filmes sobre o personagem. Chris Lee aparece novamente como o Conde, e também em cenas como Vlad Tepes...



O Melhor filme sobre o Voivode ainda é "Vlad Tepes" (a Verdadeira História de Vlad, o Empalador", 1978) de Doru Nastase...



Um drama histórico muito bem produzido da Romênia, país natal de Drácula...




Em 134 minutos, mostra as intrigas políticas, fatos, heroísmos e crimes bárbaros de Vlad (Stefan Sileanu) depois de 1956...



Apesar de destacar a face heroica do Voivede como protetor de seu povo e inimigo ferrenho dos Otomanos, o filme não o poupa de suas contradições, e em meio a grandes batalhas e conspirações políticas, são mostrados os empalamentos e fatos como os mendigos queimados depois do banquete e os emissários turcos tendo seus turbantes pregados...

O Drácula da ficção é um monstro sobrenatural chupador de sengue humano. Muitas vezes simplesmente demoníaco e dominador, por vezes, romântico, perturbado, sofredor e cômico...
E o verdadeiro Drácula? Faça seu julgamento. Ou, não...

P.S. A "História Verdadeira" de Vlad Dracul é um quebra-cabeças com inúmeras versões, por vezes conflitantes. Li e pesquisei durante meses, e peneirei como pude, checando informações rivais. Abaixo, as fontes mais importantes nesta pesquisa.

Bibliografia:

– Ralf Peter Martin – Los Drácula. Vlad Tepes el Empalador y sus antepasados.

– C.C. Humphreis – Vlad – A Última Confissão (novela).

– Vlad Tepes 1978 (filme).

- Raymond McNally & Radu Florescu –Em Busca de Drácula e Outros Vampiros, e

-Drácula: Mito ou Realidade.

Um comentário:

  1. Valeu demais esta bela e bem detalhada postagem. Até parece um excelente resumo da primeira edição da obra de Raymond McNally & Radu Florescu. Felicitări, domnule Cesar Coffin de Sousa, acesta este adevăratul vampir.

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