sábado, 12 de abril de 2014

O Homem Que Foi Godzilla !


Um antigo clichê em filmes de monstros japoneses: A miniatura de uma cidade, um fundo retroprojetado, alguns aviões de brinquedo sobrevoando, minúsculos tanques de guerra abrindo fogo e um homem com uma roupa de monstro destruindo tudo no seu caminho.
Os filmes do mais famoso monstro do cinema, GOJIRA (Godzilla no Ocidente), apesar de pretensiosos visualmente, tinham orçamentos bem modestos comparados com produções similares americanas, por exemplo. O que era compensado com um time de técnicos em efeitos especiais; maquetes elaboradas; efeitos óticos e as pesadas roupas dos monstros.





A técnica utilizada nestes filmes se chama Suitmation (ator/manipulador em uma fantasia de látex). As roupas são construídas com látex especial à prova de fogo para evitar queimaduras no manipulador nas diversas cenas envolvendo incêndios e explosões. O manipulador pode enxergar através de minúsculos buraquinhos no pescoço do monstro. Cabos e baterias são instalados nas fantasias para a movimentação da boca e olhos. Fios de nylon/cabos são utilizados por manipuladores assistentes para mover o rabo. 



Em tempos de criaturas cada vez mais absurdas, geradas por programas gráficos de computador (e orçamentos milionários), fica difícil para as novas gerações imaginarem o esforço, dedicação e trabalho corporal/artístico destes atores que encantaram e assustaram gerações sem nunca mostrarem o rosto.



Dez atores já interpretaram o Rei dos Monstros em 28 filmes desde 1954. O mais famoso deles é Haruo Nakajima (nascido em 1929) que vestiu a roupa a partir da década de 1950 até início de 1970. Ele é considerado por muitos como o melhor intérprete da criatura na longa história da franquia.  Na época, o diretor de efeitos visuais da Toho, Eiji Tsuburaya considerava Nakajima completamente insubstituível...





Depois de 23 anos, Nakajima aposentou-se da pesada fantasia após a conclusão de Godzilla vs Gigan (1972), quando o estúdio rescindiu seu contrato de ator, depois da Toho ter sido dividida em várias filiais em 1970. Nakajima ainda continuou trabalhando por vários anos na pista de boliche da Toho, localizada nas dependências do estúdio (agora extinto). Haruo Nakajima foi homenageado aparecendo como o chofer do Primeiro Ministro japonês no filme-catástrofe "Nihon Chinbotsu" (Submersão do Japão, 1973) de Shiro Moritani, mostrando assim seu rosto novamente.



 Nakajima começou como extra em filmes de Akira Kurosawa, aproveitando seu mestrado em Judô. Quando Ishiro Honda começou a produção de "Gojira" (1954), lembrou-se de um ator atlético que fizera o papel de um piloto em chamas em um filme seu anos antes. Nakajima fez um teste junto com outro dublê, mas apenas ele conseguiu se movimentar por mais de 10 metros com a roupa especial que pesava mais de 90 Kg !




O filme fez um enorme sucesso e o estúdio decidiu fazer uma continuação (e depois outra e mais outra...) e também ficou acertado que se esconderia o fato de que Gojira era um homem em uma fantasia (lembrem-se isto era no começo dos anos 50). Assim por muito tempo o nome de Haruo Nakajima apareceu junto com os outros extras dos filmes sem o crédito de ele ser Gojira.



Graças a sua dedicação, resistência física e paciência para este trabalho, Nakajima ganhou a amizade e admiração do mestres dos FX Eiji Tsuburaya. "Após o sucesso do primeiro filme, Tsuburaya passou a confiar muito em mim" ele conta em uma entrevista para a revista Fangoria. "Dali em diante, sempre que havia um papel de Kaiju ele sempre perguntava primeiro para mim se eu queria fazer." E assim, Nakajima foi utilizado para viver os papéis de diversos outros Kaiju (monstros japoneses) durante sua carreira...



... O baixinho e magro (mas atlético) Haruo, viveu criaturas enormes e perigosas como Radon (Rodan), Baran, Gaira, Baragon (em "Frankenstein Contra o Mundo, 1964) e o gorila gigante King Kong (em "A Fuga de King Kong",1967)... 








(agradecimento ao colecionador Jean-Baptiste Pujolle por ceder imagens de anúncios em jornais (Ad Mat) de Portugal)

E claro que acidentes sempre aconteciam como conta o ator: "Quando estávamos fazendo "Daikaiju Baran" (Varan,o Monstro do Oriente, 1958) eu me queimei quando um tanque com explosivos ficou muito próximo de mim. Durante "Mosura Tai Gojira" (Godzilla Contra a Ilha Sagrada, 1964) a fantasia rasgou na parte da boca em uma cena de explosão e eu senti o fogo em minha cabeça e a roupa incendiando por dentro. Em outro dia, a equipe de efeitos acionou a destruição da miniatura do castelo de Nagoya antes que eu tocasse nele. Eles levaram semanas para reconstruir tudo e custou bem caro".




Nakajima também viveu diversos Kaiju nas séries de TV "Ultra Man" e "Ultra Seven" (entre 1966 a 1968), produzidas por Eiji Tsuburaya. Perguntado se preferia atuar como o Gojira dos primeiros filmes (uma perigosa e destrutiva ameaça da natureza) ou como na versão "monstro bonzinho" de seus últimos filmes, ele respondeu:



"Eu gosto dos filmes para crianças. Era muito mais divertido e eu podia fazer mais expressões corporais como Gojira, e criar piadas com o personagem."
Atualmente Nakajima (com 85 anos) vive de uma pensão do governo e participa ativamente de convenções, mostras e homenagens dedicadas a seus Grandes e velhos amigos monstros.




Nakajima no chão, dentro da roupa de Baragon, durante as filmagens de "Furankenshutain Tai Baragon"/ "Frankenstein Contra o Mundo".




Haruo Nakajima é cultuado hoje por fãs do mundo inteiro e possui uma comunidade no Facebook dedicada a seu trabalho:

初代ゴジラスーツアクター中島春雄&特撮ファンサイト



EM BREVE , AQUI NO MUSEU DA MEIA NOITE: TODA A FILMOGRAFIA DE GODZILLA ANALISADA & COMENTADA!!! AGUARDE!


2 comentários:

  1. Muito bacana essa matéria sobre o Haruo Nakajima!
    Parabéns mais uma vez!

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  2. De cair lágrimas essa matéria! Adorei Titio Coffin. Uma grande verdade. Muitos atores de teatro e cinema se sentem os tais, mas não tem o trabalho desses artistas geniais que trabalham com o corpo. Sugestões de dossiê: Bonecos em terror: sei que tem ótimos filmes feitos com marionetistas. E os atores por trás das mascaras de macacos, que levaram ao delírio a molecada no passado! Um abraço!

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